Recomeçar

"Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre. Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo,fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser o fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si.
Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mais ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém."
ALVES, Rubem. O amor que acende a lua. São Paulo: Papirus
Reorganizando meus materiais, encontrei este texto. Penso que ele caracteriza muito bem o momento que vivenciamos nestes primeiros dias de retorno à escola, de recepção aos alunos, pois todos nós temos que estar preparados para "estourar", isto é, não podemos almejar sermos os sabedores e guardiões da verdade suprema, única e inquestionável; nossa postura deve ser mais flexível e de certa forma, mais acolhedora para que nosso aluno tenha vontade de vir, permanecer e, principalmente, aprender e compartilhar conhecimentos na escola.
Neste início de ano letivo, sejamos mais esperançosos e passíveis de transformações, especialmente, se for para crescermos.
BOM RETORNO PARA TODOS NÓS!!!!

